domingo, 22 de janeiro de 2017

O Teté



O Teté - Falta ainda apresentar o Teté. O Teté é o meu pai, também é professor e tem 67 anos. Na realidade chama-se Carlos, mas a Sofia, quando era pequenina, começou a chamar-lhe Teté e pegou o nome. Convém apresentar o Teté porque, apesar de não viver cá em casa, é uma parte importante na nossa dinâmica familiar. É, em grande parte, graças a ele que eu a Sara conseguimos fazer programinhas a dois. E isto acontece porque o Tété é um FANÁTICO pelos netos e não consegue estar mais de 2 ou 3 dias sem os ver. E assim, pelo menos, 2 vezes por semana ele vem de Lisboa a Sesimbra para ir buscar as miúdas à escola e jantar cá em casa. Também é normal que, de 15 em 15 dias, ele os leve a todos para passarem o fim de semana em casa dele. E muda fraldas, dá banhos e jantares (só o que elas gostam é claro!), dá biberão, leva ao parque, ao aquário Vasco da Gama, ao Santini, etc.. São fins de semana em que as miúdas levam uma injeção massiva de açúcar e de gorduras saturadas, mas que elas adoram. Verdade seja dita que se o Teté é um maluco obsessivo pelas netas, também o era/é por mim e pelo meu irmão. Ainda hoje, tendo eu 43 anos, se tusso 2 vezes e tenho 37.5 de febre, ele telefona-me de 15 em 15 minutos a perguntar:

- Então? Como é que estás? Estás melhor? Não te doi a garganta? E já comeste? Tens de te alimentar!!!!

Pior!! Muitas vezes ele liga à Sara com medo de eu não lhe estar a dizer a verdade:

- Sara, diz-me a verdade!!! Como é que está o Pedro??? De certeza que é só uma constipação?? Viste se ele tinha pontos brancos na garganta? Olha que garganta dele é frágil!!! Vou almoçar e já telefono de aqui a 10 minutos!!!

O “problema” é que o Teté é tão obcecado pelas netas e pelo neto, que se torna completamente parcial e sem nenhuma noção do ridículo. Podemos estar numa festa qualquer do colégio, em que uma das miúdas participa numa exibição de ballet e, se a neta se desloca para a esquerda enquanto as outras 17 colegas se deslocam para a direita, o Teté diz, com toda a tranquilidade:

- Olha, olha!! Estas tontas enganaram-se todas!!! Boa Sofia!!! (e grita para o palco!!!)

Percebam que, para o meu pai, as netas são as melhores do mundo e arredores e tudo o resto é cocó!!! A Sara, em comparação com as netas, é claramente cocó!!! Eu sou cocó! Existem as netas e depois existem os outros, que podem tentar mas que nunca chegarão aos calcanhares das meninas!

Foi também graças ao Tété que eu herdei o gosto pelas brincadeiras com pistolas, espadas, fisgas e afins. Era comum, eu e o meu irmão, termos lutas intermináveis contra o meu pai, quando éramos miúdos. Uma das brincadeiras mais comuns era a guerra de elásticos. Tínhamos de estar todos de tronco nu, com óculos de natação (segurança acima de tudo…); eu e o meu irmão ficávamos de um lado da cama dos meus pais, e o Teté do outro lado. Dobrávamos bocadinhos de papel em 4, revestíamos de fita-cola (doía mais assim…), pegávamos num elástico e era um fartote de pequenos hematomas.

Outra das brincadeiras muito divertidas que o meu pai inventou, consistia em dar uma mola da roupa a cada um de nós (eu e o meu irmão) e depois, alternadamente, podíamos colocar onde quiséssemos na cara uns dos outros. O primeiro a não aguentar a dor e a desistir, perdia. Era giríssimo: púnhamos nas pálpebras, nos arcos das orelhas dobrados em dois, no nariz, etc….
Enfim…como é que se pode não gostar de uma brincadeira destas?...

Mas o créme de la créme das brincadeiras inventadas pelo Teté, era a luta de almofadas que eu e o meu irmão fazíamos em cima da cama dos meus pais. Isso é que era!!! Com almofadas de sumaúma, bem pesadonas, dávamos porrada um no outro até à inconsciência. Cair em cima da cama, valia um ponto, mas se conseguíssemos que o outro fosse projetado para fora da cama ganhávamos dois pontos!!! É claro que muitas vezes esta projeção acabava com um contacto imediato com uma das mesinhas de cabeceira ou com a quina de uma cómoda, já para não falar dos ataques asmáticos que aquilo nos provocava, mas valia bem a pena!!! Deixámos lá ficar bilhões de neurónios e alguns dentes, mas era a nossa brincadeira favorita…


(Às vezes pergunto-me como é chegámos à idade adulta…)